Emprestava exemplares à mãe. Na devolução, a filha folheava as
obras à procura dos marcadores de página esquecidos: novenas e
fotos de santos. Assim o cordão umbilical se refazia e a literatura
sacralizava-se.
domingo, 23 de novembro de 2014
terça-feira, 21 de outubro de 2014
HAVIA UM BALANÇO NOS FUNDOS DA CASA
Vai e vem, vem e vai e a menina vai crescendo. A inocência se esvai. Vai e vem, vem e vai. Um dia um hímen rompe. Fica uma gota de sangue no balanço.
quinta-feira, 16 de outubro de 2014
sexta-feira, 10 de outubro de 2014
HORIZONTE
O inatingível desejo de alcançar o
novo, de dizer o indescritível, de encontrar forma para o nada e para o tudo através da palavra.
segunda-feira, 29 de setembro de 2014
DA ARTE ALIVIANDO A ALMA
Acordou
com a notícia da morte da amiga entalada na garganta. Tentou de tudo: chorar, tossir,
cuspir, vomitar, gritar. E nada. A dor permanecia ali a engasgar. Até que decidiu
estampar a dor no papel.
segunda-feira, 22 de setembro de 2014
PRIMAVERA
No
dia em que mudou a estação, ela partiu para
enfeitar o mundo, arrancou a própria raiz e saiu colorida a exalar perfume.
sexta-feira, 29 de agosto de 2014
SOLEDAD
Nunca
gostou do nome. Superou o desgosto, inventando o apelido: Sol. Mesmo assim a
vida seguia escura e solitária. Ao apresentar-se, ele insistiu no nome
verdadeiro. Ela falou baixo, quase um sussurro. Ele repetiu, então, em sua orelha,
o nome manso e sonoro. Nunca antes lhe parecera tão belo o próprio nome. No
mesmo instante abandonou o apelido. Na manhã seguinte percebeu que nunca mais
sofreria solidão. Amanheceu iluminada.
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